segunda-feira, maio 27, 2013

Benditos sejam


Vivam os malditos
Seus deboches e desdéns
O sacrosanto sarcasmo        
A predileção pelo avesso


Vivam os malditos
Da verdade escancarada
Do verbo dilatado
Polêmica tatuada no DNA 

Vivam os malditos
Seu gosto agridoce pelo incomum
O fardo pesado embalado
O óbvio sempre rejeitado

Vivam os malditos
E suas poesias feitas de lágrimas, sangue e semên
Sua autenticidade pungente
Sua marginalidade latente

Vivam os malditos
Para quem ousadia não é escolha
Guiados pela incerteza
Cientes de sua natureza extraordinária

Vivam os malditos
E suas sombras 
O medo do velado
O autêntico despudorado

Vivam os malditos
E seus amores intensos
Suas loucuras vis
Sua entrega descomunal

Vivam os malditos
De Baudelaire a Chacrinha
De Clarice a Nelson Rodrigues
De Cazuza a Itamar Assunção
De mim a você

Camm

sábado, maio 11, 2013

Fêmea


A dor de ser uterina
De  carregar dentro de sí a caixa do divino
A máquina milagrosa de gerar vidas
Tudo concentrado em uma só bolsa

Opera além da nossa vontade
E muito além do nosso entendimento
Vem conosco desde nascença
Independente de portar ou não um ser, ela funciona

Nosso corpo se prepara
Os hormônios são despertados
E militarmente desempenham suas funções
Preparam-se religiosamente para aquele ritual

Do lado de fora só nos resta aceitar
As mudanças de humor
Os cansaços, cólicas
As oscilações de peso

A sensibilidade ainda mais aflorada
A nossa condição de mulher
A aceitação da beleza desse rito de passagem
Ao qual não podemos fugir naturalmente

Período que traz consigo ensinamentos
Repleto de sacralidade ancestral
De mistérios e ocultismos
De ordem muitissímo orgânica
Culminado em sangue e alívio

Adoro ser mulher…

 Camm

Excêntrica


Hoje não tô pra festas
Distribuição de sorrisos
Conversas jogadas fora
O império do superficial

Escolhi o recolhimento
O encontro literário
A viagem vertical às vísceras
O silêncio

Hoje não quero música
Apenas as vozes da minha mente
A solidão que procura o encontro
O consolo da poesia

Não quero ouvir seus problemas, 
Nem observar sua neurose
Nem ter paciência
Nem aceitar forçosamente

Quero ficar comigo
Me perder no meu labirinto
E se possível demorar bastante pra encontrar o caminho de volta

Se quiser vir comigo talvez eu deixe
Mas tem que prometer que vai ficar quietinho
Deixar seu ego de fora
Sem histeria
Sem competição

Calmo
Silencioso
Presente
Você está no meu labirinto

Se encontrar a saída
Por favor, me mostre sutilmente,
Com delicadeza

Camm



Derramada


A matéria da poesia é o sofrimento
O que transborda
O que não cabe mais
O que extrapola do caos
O ego fragmentado

O que não se importa em ser entendido
O que causa tremor
O que contrai
O que pulsa descompensado
O que não pode ser calado

O que não quer ser editado
O que precisa ser vomitado
cagado, peidado, arrotado

Aquilo que não quer ser corporificado
Nem fotografado
Nem plastificado
Mas sim jorrado

Camm

Vendaval


Vem, vem bem forte
Vem com tudo
Me derruba
Me atropela
Me emudece

Quero sentir
Quero sentir
Quero sentir

Quero a lágrima do desespero correndo legítima pelo rosto
O grito suplicante no escuro na esperança tímida de ser ouvido
O impacto da atitude diante do sofrimento
O urro misturado ao choro
Os bolinhos de papel higiênico para assoar o nariz
A pena redentora de mim mesma

O chamado

Camm

Outono


Não me pergunta nada
Só me abraça e passa seu calor
Me entenda mudo
Me deixa quieta
Dorme comigo, só dorme, dorme, dorme....

Não pensa nada
Só me dá seu carinho e amor
Me aceita quietinha
Fica do meu lado
Me dá seu calor

Lado a lado
Corpo a corpo
Sem amanhã
Sem compromisso
O agora todo nosso

Me empresta seu calor
Dorme abraçado comigo
Não me pergunta nada
Não tenta me entender
Me aceita
Me ama que eu te amo

Camm

Procura-se


O que tá dentro de mim querendo sair?
Aonde foi parar aquela lágrima que não sai mais do meu olho?
O que significa essa sensação diferente na boca do estômago?
Por que sinto saudade daquilo que eu quase não sei?
Para onde foram os sonhos delirantes?
Cadê o gosto do aconchego do beijo e dos corpos unidos na noite fria?
Cadê a loucura de sentir loucura?
O que precisa jorrar e eu não to deixando?
Pra onde tá indo todo esse fluxo de dentro?
Cadê aquela sua verdade que você me mostrou?
Cadê aquela minha verdade que eu escondi sem querer?

Camm

Nostalgia


Tô me sentindo tão down
Tentando decifrar qual o sinal 
O verso, a letra a rima
Sentir o aviso do coração
O frio gela até a espinha
A tristeza vem sempre sozinha
A rima é sempre só minha
A poesia dança na solidão
Trazendo a mensagem do coracão
Junto vem a aflição
Carência
Vontade de sentir junto
Não mais só
Descobrir o caminho
A tristeza vem com o recado
Eu quero pegar a correspondência
Sentir até o final
Só quero sentir
Não importa
Quero de volta meu coração
Com tristeza se faz uma paixão
Com paixão se faz vida

Camm

Sujeito e objeto



Adorava o jeito que ele pontuava as frases! Períodos curtos. Sentimentos intensos.
Lamento não ter sido tão longo nosso período juntos. No meu texto havia mais reticências… muitas vírgulas.
Mas ele insistia em usar exclamações e frases sucintas. Enquanto eu tentava, entre parentêses, prolongar aquela sentença.
Ele vinha com travessões e interrogações descabidas. Dentro de sua cabeça surgiam histórias sem começo meio ou fim. E eu, na tentativa de organizar a narrativa, me vi perdida num labirinto de frases e letras desconexas.
E o que era para ter sido um romance, acabou como livro de bolso.

Separação


É estranho quando a linguagem entre os corpos continua em sincronia, mas as mentes não mais. No plano do pensamento as diferenças não encontram um meio termo, um lugar para ambas se acomodarem e gozarem de relativa tranqüilidade. Quando unidos, os corpos conhecem os segredos escondidos entre a pele e os ossos. Mesclam-se com a maior desenvoltura e intimidade. A carência e o desejo emanam calor num abraço terno. Complementam-se como num bonito balé entre o vento e o mar. As bocas se unem. O magnetismo está presente e atuante. Os cheiros se misturam, formando um novo e erótico odor. Os corpos se entrelaçam, se unificam, não se sabe onde começa um e termina o outro.
Mas na ausência do encontro corpóreo, a mente é inundada por pensamentos nefastos e destrutivos, dor e sofrimento são inconvenientes companhias. Os minutos de solidão tornam-se torturantes. Uma eterna desconfiança insiste em sussurrar ao ouvido, a ponto de enlouquecer. A mente desenvolve uma poção, cujo ingrediente principal é a paranóia e só há um antídoto para saná-la, e este antídoto é o outro, com seu corpo, sua presença e sua voz! Ou qualquer coisa que o corporifique, arrancando o ser do mundo da fantasia e da loucura. Entregando-o novamente à realidade.
A separação se faz necessária, vital, imprescindível. A intensidade da dor, quando do momento da ausência, só passará quando houver o desapego. O desligamento, tanto mental quanto corporal, precisa ser acionado, pois um não existe sem o outro e a realidade conjunta configura o caos. A única esperança de paz é a solidão de fato. A solidão plena. Sem os fantasmas malévolos da fantasia. A conexão precisa aprender a acontecer por outra via, que não a do sofrimento e do desejo.
Hoje és observado de longe... com a calma de quem observa o fogo sem colocar as mãos em suas labaredas. Apenas aquecendo-se enquanto pensa... pensa... aproveitando-se desse breve e pacifíco reencontro consigo mesmo.